Estudo científico revela autenticidade em múmias de Nazca

Uma reviravolta pode estar a caminho no caso das célebres múmias de Nazca. Pesquisadores vinculados à Universidad Nacional San Luis Gonzaga de Ica, no Peru, divulgaram novo estudo revisado por pares, finalmente trazendo esclarecimentos sobre uma das descobertas arqueológicas mais polêmicas dos últimos anos. Após uma rigorosa análise biométrica e mofoanatômica, a pesquisa confirmou a antiguidade e autenticidade de alguns dos espécimes humanoides tridáctilos (de três dedos) encontrados em Nazca.

As conclusões do estudo, se corroboradas por novas investigações científicas, podem encerrar anos de debates e controvérsias, num episódio que já se tornou caso de polícia e um processo milionário. Além disso, inaugurarão uma nova fase na tentativa de compreensão das misteriosas figuras de três dedos que foram contemporâneas dos povos pré-hispânicos do Peru.

Com características incomuns, incluindo crânios 30% maiores que de seres humanos e mãos com três dedos, a análise de datação do carbono 14 mostrou que as criaturas encontradas viveram entre 240 e 383 d.C., tendo cerca de 1.700 anos.

O raio-x de “múmia alienígena” revelou que seu crânio é 30% maior que de um ser humano comum – Foto: Reprodução/ResearchGate
A tridactilia, condição em que um espécime tem apenas três dedos, chamou a atenção dos cientistas – Foto: Reprodução/ResearchGate

O estudo denominou o espécime como M01 (popularmente “múmia María”) e descreveu que, além da cabeça e das mãos incomuns, não possuía cabelo. Ainda, seus olhos eram “esbugalhados” (protusão no globo ocular) e, no lugar das orelhas, possuíam “buracos” (abertura no canal auditivo).

O humanoide também possuía uma mandíbula avantajada e poucos dentes, mas o seu nariz era de aparência e tamanho normais. O rosto tinha perfil convexo e presença de lábios volumosos.

Múmia María

Não se sabe exatamente o que causou a morte dos espécimes encontrados, tampouco se existem mais exemplares deles. Mas os pesquisadores estão empolgados com as descobertas feitas.

A civilização Nazca ocupou a costa sul do Peru entre 1000 a.C. e 800 d.C. e sua sociedade ainda é cercada de mistérios, com as Linhas de Nazca sendo o exemplo mais conhecido. As descobertas arqueológicas na região costumam ser intrigantes.

As Linhas de Nazca, desenhos gigantes feitos no deserto peruano, são um dos principais mistérios que cercam a Civilização Nazca, da qual os humanoides encontrados provavelmente faziam parte – Foto: Divulgação/Genry Bautista/Getty Images

Os resultados sugerem que, se futuros estudos confirmarem que se trata de uma nova espécie humanoide, o impacto na biologia e na ciência será imenso, com implicações significativas para a compreensão da história e da diversidade biológica na Terra. A descoberta pode reescrever partes da história humana e oferecer novas perspectivas sobre a evolução e as interações das espécies humanas com o ambiente.

A investigação “Caracterização biométrica morfoanatômica e datação da antiguidade de um espécime humanoide tridáctilo: a respeito do caso de Nazca-Peru” foi publicada em maio deste ano na Revista de Gestão Social e Ambiental. Foi conduzida por uma equipe multidisciplinar de cientistas, liderada pelo professor de odontologia e doutor em saúde pública Edgar Martín Hernández Huaripaucar. Junto com ele, os colegas Roger Zúñiga-Avilés, Bladimir Becerra-Canales, Carlos Suarez-Canlla, Daniel Mendoza-Vizarreta e Irvin Zúñiga-Almora também assinaram o artigo.

Evidências de técnicas avançadas em manufatura de ligas em implantes

Paralelamente ao estudo anatômico das múmias tridáctilas, foi realizado um exame preliminar minucioso dos materiais metálicos encontrados nos corpos mumificados, comumente referidos como “implantes”. O relatório técnico elaborado por uma equipe multidisciplinar lança nova luz sobre a composição e origem desses metais, apresentando uma análise científica rigorosa que complementa as descobertas iniciais sobre as múmias.

As análises revelaram a presença de ligas complexas de metais como cobre, prata, ouro e ósmio. Estes metais sugerem um nível avançado de conhecimento metalúrgico entre os povos antigos, permitindo a criação de ligas com propriedades específicas para durabilidade e resistência.

Os implantes analisados incluem um fragmento pectoral da múmia Josefina, que consiste principalmente de cobre metálico (85% em massa) com impurezas de ferro e enxofre.

Além disso, os implantes de prata encontrados nas múmias mostram uma composição que varia significativamente, indicando diferentes técnicas e materiais usados na sua criação. Por exemplo, a análise da mão tridáctila, da múmia “Albert”, revelou uma liga de prata com cobre e traços de ouro, formando uma estrutura complexa que pode ter sido usada para fins específicos de durabilidade e funcionalidade.

A presença de ósmio nos implantes é particularmente notável devido à sua raridade e densidade extrema. O ósmio, junto com outros metais encontrados, aponta para uma sofisticação tecnológica que permite suposições sobre a capacidade dos povos pré-hispânicos de trabalhar com metais raros e criar ligas avançadas (os povos pré-hispânicos são um grupo de culturas que habitavam o continente antes da chegada de Cristóvão Colombo na América em 1492. Destacaram-se os incas, na América do Sul e os mesoamericanos, na América Central e do Norte).

“De particular interesse é a raridade do metal, que eleva o preço. Um grama de ósmio custa cerca de 1.869,48 euros. Se as múmias de tridáctilo Nasca são falsas, então surge a questão de por que os falsificadores usaram o metal precioso mais caro do mundo quando poderiam ter incluído qualquer outro material”, aponta o relatório.

Estas descobertas não apenas expandem o conhecimento sobre as práticas metalúrgicas antigas, mas também levantam novas questões sobre as habilidades e o alcance tecnológico desses povos. Os pesquisadores sugerem que esses objetos podem ter tido significados simbólicos ou terapêuticos, associados a práticas médicas ou espirituais. “A presença de metais raros e a complexidade dos implantes podem indicar uma função ritualística, possivelmente como talismãs ou objetos de poder”, sugere o relatório.

Ademais, a localização dos implantes nos corpos das múmias sugere uma aplicação intencional e precisa, com alguns situados em áreas específicas como o tórax e os braços, possivelmente relacionados a práticas de cura ou proteção.

O relatório técnico “Metales y minerales desconocidos en momias prehispánicas de la región de Ica” (Metais e minerais desconhecidos em múmias pré-hispânicas da região de Ica) foi concluído no ano passado por pesquisadores da Facultad de Ingeniería Geológica, Minera y Metalúrgica, em Lima. Entretanto foi publicado apenas em fevereiro desse ano no repositório ResearchGate pelo pesquisador Joakim Jensen (cujo nome não é creditado no relatório), do departamento de geografia e geologia da Universidade de Copenhagen.

Consultas: Portal Vigília, nd+ (25/06/2024)

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