Estudo científico explora a consciência como origem de tudo

Em vez de dizer “primeiro veio a matéria, depois, muito tempo depois, surgiu a consciência dentro do cérebro”, uma teoria científica propõe o contrário: existe uma Consciência universal, um “campo de consciência”, que vem antes de tudo e do qual o universo inteiro é uma expressão. Matéria, espaço e tempo seriam efeitos desse campo, não a causa dele.

Para visualizar isso, imagine um oceano enorme e silencioso. Esse oceano seria o “campo de consciência”. As ondas que aparecem na superfície seriam as consciências individuais: você, eu, qualquer ser consciente. Cada onda parece separada, com um formato próprio, mas tudo é água do mesmo oceano. A teoria diz, em termos mais técnicos, que as mentes individuais são “localizações” ou “pontos focais” desse campo maior, que existe independentemente do cérebro, do corpo e até do universo físico.

Maria Strømme, autora da pesquisa, apresenta uma teoria em que a consciência vem primeiro, e estruturas como tempo, espaço e matéria surgem depois. Ilustração do artigo publicado na AIP Advances (mais informações no final deste artigo).

Outra parte ousada da proposta é falar do “antes” do Big Bang. No modelo tradicional, o Big Bang é o início de tudo: espaço, tempo, energia, leis físicas. Já nessa visão, antes do Big Bang já existia esse campo de consciência, num estado de potencial puro, sem espaço, sem tempo, sem partículas. Seria como um “estado mental” absoluto, onde todas as possibilidades do universo estão presentes, mas ainda não diferenciadas, como um sonho que ainda não começou a ser sonhado.

O Big Bang, então, não seria apenas uma explosão física, mas uma espécie de “ato criativo” desse campo de consciência universal. Quando esse campo se “focaliza” em certas possibilidades, espaço e tempo emergem, partículas aparecem, leis da física se estabilizam. É como se a realidade física fosse o resultado de um processo de escolha dentro de uma mente cósmica impessoal. Não é um “deus-homem sentado numa nuvem”, mas uma inteligência criativa, abstrata, que se expressa através da própria estrutura do universo.

Nesse cenário, o cérebro não “produz” a consciência, assim como um rádio não produz o sinal de rádio. O cérebro funcionaria mais como um receptor, um modulador: ele traduziria o campo de consciência para a experiência subjetiva humana, limitada, localizada. Quando o cérebro se danifica, a recepção fica com ruído; quando o cérebro morre, o receptor desliga, mas o sinal — o campo de consciência — permanece. É daí que vem a sugestão de que a consciência individual não acaba totalmente com a morte, apenas deixa de estar presa à configuração de um corpo específico.

Um ponto interessante é que essa teoria conversa com tradições espirituais antigas: Vedanta, budismo, misticismo cristão, sufismo, etc. Todas elas, em linguagem diferente, já falavam de uma consciência ou espírito universal do qual tudo participa. A diferença aqui é a tentativa de transformar isso em modelos matemáticos, prever efeitos em física, neurociência e cosmologia, e propor experimentos que poderiam, em princípio, dar certo ou dar errado. É uma tentativa de tirar essas ideias do campo puramente religioso e colocá-las na arena da investigação científica.

Filosoficamente essa ideia mexeria com muita coisa: a maneira como entendemos a morte, a sensação de separação entre “eu” e “outro”, a responsabilidade ética (já que tudo estaria, em algum nível, conectado), o sentido de vida num universo que não seria apenas um acidente cego, mas uma expressão de algo mental.

A pesquisa, “Consciência universal como campo fundamental: Uma ponte teórica entre a física quântica e a filosofia não-dual“, foi publicada em 13 de novembro de 2025 na revista científica AIP Advances pela professora de Ciência dos Materiais na Universidade de Uppsala (Suécia), Dra. Maria Strømme. O artigo foi selecionado como o melhor da edição e destaque na capa.

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