Nos países considerados fechados — regimes autoritários, ditaduras ou Estados que controlam rigidamente a informação — o tema dos objetos voadores não identificados segue um caminho distinto daquele encontrado em democracias abertas. Onde no Ocidente existe espaço para o debate público, especulações, reportagens investigativas e até audiências parlamentares, nesses regimes a abordagem é quase sempre restrita ao campo militar, classificada como assunto de segurança nacional.

O primeiro ponto é a lógica do sigilo. Para governos centralizadores, admitir a presença de algo “não identificado” nos céus pode ser lido como fraqueza: se o Estado se apresenta como onisciente e onipotente, como poderia existir algo em seu território fora do seu controle? Dessa forma, relatos de pilotos, militares ou civis são registrados, mas rapidamente encaminhados para esferas secretas, longe da sociedade. O mistério não se torna tema de jornal, mas sim de relatórios internos de inteligência.
No campo científico, pesquisadores de universidades ou institutos oficiais podem até estudar fenômenos aéreos anômalos, mas publicações tendem a ser extremamente técnicas, livres de especulações sobre vida alienígena. Na União Soviética, por exemplo, houve inúmeros programas de coleta de dados sobre OVNIs, mas quase sempre descritos em termos de astrofísica, meteorologia ou defesa aérea. Somente após o colapso do regime alguns documentos revelaram a dimensão real dessas investigações.
O contraste cultural é notável. Enquanto nos Estados Unidos ou Europa avistamentos alimentam uma indústria cultural — filmes, livros, revistas, debates televisivos — em países fechados o tema simplesmente não entra na cultura popular. Na Coreia do Norte, por exemplo, o cidadão comum dificilmente teria acesso a literatura ou cinema estrangeiro sobre ufologia. A ausência de informação é uma forma de evitar que as pessoas formulem hipóteses fora da narrativa estatal.
Ainda assim, alguns episódios de destaque escaparam ao controle. O famoso caso de Teerã, em 1976, envolveu caças iranianos que perderam sistemas ao tentar interceptar um objeto luminoso. O episódio foi estudado por norte-americanos, mas no Irã a repercussão pública foi mínima. Algo semelhante ocorreu na China: pilotos relataram encontros aéreos, mas a mídia tratou com humor ou reduziu a fenômenos climáticos, sem abrir espaço para interpretações alternativas.

A consequência é que a população desses países raramente participa de qualquer debate ufológico. Onde no Ocidente surgem grupos civis de pesquisa e associações de entusiastas, em regimes autoritários quase não há espaço para essas organizações. O interesse popular é abafado, e quando existe, se mantém em círculos privados, sem visibilidade.
A União Soviética, o Irã e a China forneceram exemplos concretos de como regimes fechados lidaram com fenômenos aéreos anômalos de forma pragmática e confidencial.
União Soviética – Petrozavodsk (1977): Na cidade de Petrozavodsk, Carélia, centenas de testemunhas observaram um objeto luminoso irradiando feixes de luz sobre o céu. O evento foi reportado pela imprensa soviética e analisado pela Academia de Ciências, tornando-se um dos marcos para a criação dos programas Setka. O fenômeno foi tratado como anomalia científica e risco de defesa aérea.
União Soviética – Programas Setka (1970s-1980s): Após uma onda de relatos, especialmente a partir de 1977, a URSS criou dois programas oficiais: Setka-AN (Academia de Ciências) e Setka-MO (Ministério da Defesa). O objetivo era estudar “fenômenos atmosféricos e espaciais anômalos” sob ótica científica e militar. Esses programas, documentadas por Yuli V. Platov e Boris A. Sokolov, só vieram a público após a queda da URSS.
Irã – Caso Teerã, 1976: Dois caças F-4 iranianos foram enviados para investigar um objeto luminoso sobre Teerã. Ambos sofreram falhas nos sistemas de armamento e comunicação durante a aproximação. O caso foi documentado em relatórios do Defense Intelligence Agency (DIA) e do Estado-Maior Conjunto dos EUA, divulgados via FOIA. É considerado um dos encontros militares mais bem registrados. No Irã, no entanto, a repercussão foi mínima: um incidente considerado sensível demais para debate aberto.
China – Rastreamento por IA (anos 2010-2020): Na China contemporânea, o tema é tratado de forma pragmática. Pesquisadores ligados ao Exército de Libertação Popular (PLA) já publicaram sobre o uso de inteligência artificial para rastrear UAPs como forma de reforçar a defesa aérea . O discurso oficial evita qualquer associação com extraterrestres: são “fenômenos aéreos não explicados” a serem catalogados. Em 2022, quando o radiotelescópio FAST chegou a detectar possíveis sinais artificiais, a informação foi rapidamente recuada e atribuída a interferência terrestre.
Coréia do Norte – Sem dados: A Coreia do Norte representa o extremo do silêncio. Não há registros em mídia estatal ou literatura oficial sobre OVNIs. Essa ausência não significa inexistência de observações, mas sim um reflexo do controle cultural absoluto: temas que não fortalecem a propaganda do regime simplesmente não aparecem. Aqui, portanto, falamos de inferência, não de documentação.
Mas não pense que no Ocidente as coisas são as mil e umas maravilhas, porque não são. Apesar de haver mais abertura e liberdade de imprensa, a ocultação de informações sobre OVNIs sempre foi uma prática comum, só que menos explícita que nos regimes fechados.
A diferença está na forma: enquanto países autoritários impõem silêncio absoluto, o Ocidente trabalha com gestão de narrativas. No Ocidente, a população pode debater livremente e jornalistas podem investigar, mas nunca é concedido acesso total aos dados (e talvez não deva mesmo, vide questão de privacidade dos envolvidos). Muitas informações só são liberadas décadas depois, quando deixam de ser consideradas sensíveis.
