A relação entre a ufologia e a ciência é uma das conversas mais fascinantes e desafiadoras do nosso tempo. A ufologia lida com fenômenos aéreos não identificados (FANIs) que, por definição, escapam das explicações imediatas. A ciência, por sua vez, baseia-se em evidências verificáveis, repetibilidade e revisão pelos pares. Conciliar essas duas áreas exige mais do que boa vontade: exige uma revolução metodológica e uma expansão do nosso olhar sobre o que entendemos como “prova”.

A primeira barreira está no método científico tradicional. Ele é construído para estudar fenômenos que podem ser reproduzidos em condições controladas. Objetos voadores não identificados não avisam quando vão aparecer; não é possível “chamar um disco voador para o laboratório”. Esse caráter imprevisível exige abordagens que aceitem evidências indiretas, análises probabilísticas e uma triangulação mais sofisticada de dados.
A solução pode não estar em inventar um novo método científico, mas em importar práticas consagradas. Por exemplo, a triangulação instrumental — quando um mesmo evento é registrado por diferentes sensores, como câmeras, radares e satélites — é comum em astronomia e já poderia estar integrada aos protocolos ufológicos. O mesmo vale para a análise estatística e para a utilização de inteligência artificial para identificar padrões e anomalias em grandes volumes de dados.
Nesse salto, é essencial o desenvolvimento de conhecimento que combine diferentes métodos, disciplinas e perspectivas, em vez de se apoiar em um único modelo de análise. Imagine um protocolo que combine astrofísica, engenharia de materiais, estatística avançada, biologia e até filosofia da mente. A ciência de ponta já opera nesse nível de integração em outras áreas — como no estudo de ondas gravitacionais ou na exploração de Marte. Por que não aplicar essa mesma sofisticação aos fenômenos aéreos anômalos?
A ciência se baseia em observações, medições e experimentação para construir conhecimento, mas a ufologia frequentemente lida com testemunhos, e testemunhos são valiosos, mas frágeis. Integrar ferramentas da psicologia cognitiva, da análise de padrões de comportamento e até de inteligência artificial para avaliar a consistência de relatos pode abrir novas portas. É um terreno fértil para inovações metodológicas.
Parece muito — e é mesmo —, mas dá para quebrar o elefante em fatias. Em vez de um mega-protocolo monolítico, poderíamos pensar num protocolo modular e progressivo, onde cada disciplina entra como “módulo de validação” acionado só quando fizer sentido. Assim, colocamos a ufologia no terreno das ciências observacionais, com um pé firme no real e outro aberto ao extraordinário.
Além disso, precisamos superar um problema cultural: o estigma. Por décadas, falar sobre UFOs em ambientes acadêmicos era visto como suicídio profissional. Esse preconceito atrasou a pesquisa séria. Hoje, com a abertura de dados oficiais em países como os Estados Unidos e o Japão, há um campo mais propício para investigar sem ridicularização — mas ainda falta um consenso global.
Falando em abertura de dados, outra providência que poderia ser feita é a criação de bancos de dados abertos e auditáveis, acessíveis à comunidade científica. Transparência é a chave. Quanto mais dados públicos de alta qualidade tivermos — sejam vídeos de satélites, análises de radar militar ou gravações de observatórios astronômicos —, mais fácil será aplicar métodos robustos de análise.

Vale lembrar que a ausência de uma explicação imediata não é evidência de origem extraterrestre. Muitas anomalias observadas já se mostraram drones, balões meteorológicos, reflexos ópticos ou fenômenos atmosféricos pouco compreendidos. No entanto, um pequeno conjunto de casos resiste a todas essas explicações, e é exatamente aí que a ciência precisa aprofundar o olhar.
No fim, a conciliação entre ciência e ufologia depende de humildade intelectual. Nem tudo que vemos é alienígena, mas nem tudo que não entendemos pode ser descartado. A ciência não é um dogma; é um processo de refinamento contínuo. Se os fenômenos são reais — e os dados sugerem que pelo menos parte deles é —, mais cedo ou mais tarde, um corpo metodológico adequado surgirá.
Essa transição exigirá não só novos instrumentos, mas também uma mudança de mentalidade. Precisaremos de cientistas dispostos a enfrentar o desconhecido com rigor, mas também com imaginação. É nesse cruzamento entre ceticismo saudável e abertura ao inexplorado que, provavelmente, surgirá a próxima grande revolução do conhecimento.
Talvez a metodologia científica discutido aqui já seja aplicada por pesquisadores ufólogos competentes em campo, mas que ainda a ciência tradicional ortodoxa elitizada não dá o seu devido valor tratando a ufologia como uma pseudociência. Falta o reconhecimento de iniciativas para uma padronização global e um rigor estabelecido para mudar esse cenário. Até lá, vivamos essa era de ouro da ufologia.
