Reator nuclear na Lua, que história é essa?

Estão querendo armar a Lua ou instalar armamentos nucleares lá? Querem usá-la como base militar? E se isso explodir, vai despedaçar a Lua ou mudar sua trajetória? Calma que não é bem assim, apesar da ideia parecer um pouco assustadora.

Em 5 de agosto de 2025, o administrador interino da NASA, Sean Duffy, declarou que pretende fazer a agência acelerar seus planos para instalar um reator nuclear na Lua até 2030, com fins de permitir habitações a longo prazo e operações científicas.

A Lua enfrenta duas semanas de escuridão, o que torna a energia solar pouco confiável. Um reator de fissão resolveria essa limitação. O plano envolve um reator de 100 quilowatts, suficiente para abastecer uma base lunar com energia contínua — algo essencial se quisermos ficar por lá diante das longas noites lunares de cerca de 14 dias.

A NASA planeia produzir energia no nosso satélite através de um reator de fissão nuclear. Imagem: uwaterloo.ca/news

A iniciativa é também uma resposta ao programa conjunto da China e da Rússia, que planejam implantar um reator lunar até meados da década de 2030. A ideia desses dois países é criar uma base lunar permanente — possivelmente na superfície e até em órbita — para exploração científica, observação, experimentos e operação autônoma prolongada, com eventual presença humana. Já tem até nome: Estação Internacional de Pesquisa Lunar (ILRS), desenvolvido pela CNSA (China) e Roscosmos (Rússia).

Países como Egito, Venezuela, África do Sul, Paquistão, Azerbaijão, entre outros, já foram convidados ou aderiram ao projeto ILRS, que está aberto à cooperação global. Essa estratégia representa um contraponto significativo ao programa Artemis da NASA e reflete uma disputa geopolítica crescente pelo domínio lunar.

Questões tecnológicas

Reatores de fissão, como os previstos nos programas da NASA e da parceria China–Rússia, ofereceriam uma solução capaz de gerar entre 40 kW e 100 kW de forma estável, alimentando habitats, sistemas de suporte à vida, laboratórios e até processos de extração de recursos lunares. Tecnologias como o Fission Surface Power (FSP), derivadas do projeto Kilopower, buscam criar reatores compactos, modulares e seguros para operar em ambientes extremos, suportando variações térmicas de –173 °C a +127 °C e resistência a impactos de micrometeoritos.

A instalação de um reator no solo lunar exige soluções engenhosas para blindagem contra radiação, dissipação de calor em vácuo e manutenção remota. Sem atmosfera para conduzir calor, sistemas radiadores precisam ser grandes e eficientes. Além disso, o transporte de materiais nucleares até a Lua exige protocolos rigorosos de segurança para evitar contaminação durante o lançamento ou em caso de falha. A localização do reator também deve equilibrar proximidade das instalações humanas com distanciamento suficiente para proteger contra radiação direta e eventuais incidentes, o que implica na criação de áreas de acesso restrito.

Reator nuclear compacto. Arte: Universo Iluminado

O principal desafio tecnológico de um reator nuclear na Lua, segundo engenheiros e especialistas que acompanham esses projetos, não é tanto fazer o reator funcionar, mas fazê-lo funcionar de forma estável e segura no ambiente lunar. Isso significa resolver questões como dissipador de calor no espaço, proteção contra poeira lunar (regolito), blindagem contra radiação, resistência a ciclos térmicos extremos e montagem e manutenção remota. Provavelmente será instalado por robôs antes da chegada humana, exigindo alta confiabilidade sem intervenção frequente. Qualquer reparo complexo exigiria envio de peças e ferramentas específicas da Terra, com meses de atraso.

Questões legais

No campo legal, o principal marco regulatório é o Tratado do Espaço Exterior de 1967, que proíbe a apropriação de território lunar e exige “devido respeito” pelas atividades de outros países. Isso gera debate sobre a criação de “zonas de segurança” ou “keep-out zones” ao redor de instalações nucleares. Embora os Artemis Accords tragam diretrizes para tais zonas, sua aplicação é limitada, já que não foram assinados por todas as potências espaciais.

Outro ponto sensível é a Convenção de Responsabilidade Internacional de 1972, que estabelece que o país responsável pelo lançamento arca com todos os danos causados por seus objetos espaciais, incluindo contaminação radioativa. Dessa forma, o país operador deve não apenas garantir a segurança técnica do reator, mas também estar preparado para responder juridicamente por qualquer dano.

Por fim, há a questão da transparência e cooperação internacional. O direito espacial exige que os Estados informem e, quando apropriado, consultem outros países antes de realizar atividades que possam gerar riscos significativos. No caso de reatores lunares, isso implica em compartilhar dados técnicos essenciais, protocolos de segurança e até permitir inspeções, o que pode gerar resistência por questões de sigilo tecnológico.

Assim, o desafio não está apenas em construir um reator seguro, mas em fazê-lo dentro de um arcabouço legal que ainda está sendo testado e que provavelmente precisará evoluir para lidar com a nova realidade da presença humana e tecnológica permanente na Lua.

E se o reator explodir ou der algo errado?

A Lua seria espedaçada? Um reator nuclear, mesmo grande, opera com uma potência da ordem de dezenas a centenas de quilowatts na Lua — algo ínfimo comparado à energia necessária para afetar um corpo do tamanho da Lua. A energia de ligação gravitacional da Lua (a quantidade necessária para despedaçá-la) é estimada em 1,2 × 10²⁹ joules. Isso é cerca de 29 trilhões de vezes a energia liberada pela bomba de Hiroshima.

Mudaria sua órbita ou trajetória? Para mudar significativamente a órbita da Lua, seria necessário alterar seu momento linear com uma força extremamente maior do que qualquer evento humano poderia produzir hoje. Até impactos gigantes, como os que criaram crateras de centenas de quilômetros, não mudaram perceptivelmente a órbita da Lua. Um acidente nuclear lunar poderia no máximo espalhar material radioativo localmente, mas não deslocaria o satélite.

Portanto o risco maior não é mecânico, mas ambiental e diplomático. Haveria contaminação radioativa da área próxima, afetando experimentos científicos, futuras missões e possivelmente gerando conflitos sobre responsabilidades. No vácuo lunar, a radiação poderia se espalhar por partículas de poeira fina (regolito), que pode permanecer em suspensão por longos períodos devido à fraca gravidade. Qualquer futura missão na região ficaria em risco, exigindo isolamento permanente da área.

Vale lembrar que na Terra nós já usamos reatores nucleares de fissão há décadas, e eles são a base da geração de energia nuclear que conhecemos hoje. São usados em usinas nucleares para geração de eletricidade a fim de aquecer água, produzir vapor e movimentar turbinas. Submarinos e porta-aviões nucleares também usam reatores compactos para gerar energia elétrica e propulsão. Por fim, usado também na produção de isótopos para medicina nuclear, indústria e pesquisa científica.

Vai dar tempo de construir até 2030?

A meta de instalar um reator nuclear de fissão na Lua até 2030 é ambiciosa e tecnicamente fascinante, mas enfrenta desafios consideráveis que tornam provável um atraso. Embora a NASA já tenha desenvolvido protótipos terrestres como o Kilopower, capazes de gerar energia de forma compacta e confiável, a transição dessa tecnologia para o ambiente lunar requer uma série de adaptações críticas. O programa Fission Surface Power, que busca ampliar a potência para a faixa de 40 a 100 kW, ainda passará por vários testes e validações antes de estar pronto para lançamento, e qualquer problema nessa fase pode comprometer o cronograma.

O transporte seguro de um reator nuclear até a Lua é, por si só, um desafio logístico e regulatório. Mesmo que o sistema seja modular e relativamente leve para os padrões terrestres, ele ainda exige foguetes com capacidade de carga robusta e protocolos internacionais para o envio de material nuclear, algo que envolve burocracia e negociações diplomáticas. Além disso, a montagem na superfície lunar provavelmente será realizada por robôs, o que requer um grau de automação e tolerância a falhas ainda não testado nesse nível de complexidade. A menor falha em qualquer etapa pode resultar em atrasos de meses ou até anos.

Teríamos tecnologia robótica suficiente para os robôs sozinhos construirem um reator nuclear ou uma habitação lunar até 2030? Arte: Universo Iluminado

Outro obstáculo significativo é o próprio ambiente lunar. A ausência de atmosfera dificulta a dissipação de calor, obrigando o uso de radiadores grandes e extremamente eficientes. A poeira fina e abrasiva do regolito representa risco de obstrução e desgaste de componentes, enquanto a radiação e os ciclos térmicos extremos exigem soluções estruturais avançadas. A proteção contra radiação também é uma questão crítica: embora seja possível enterrar parte do reator no solo lunar, isso exige robôs mineradores e sistemas de movimentação que ainda não foram amplamente testados em condições reais.

Diante desse cenário, embora 2030 continue oficialmente como meta, a probabilidade de que a instalação sofra atrasos é alta. O desenvolvimento tecnológico, a logística de transporte e montagem, e as questões legais e diplomáticas que cercam a operação de um reator nuclear no espaço são variáveis que dificilmente se alinham sem contratempos. Assim, é razoável esperar que o primeiro reator lunar totalmente operacional seja inaugurado com alguns anos de atraso em relação ao planejado, marcando ainda assim um passo histórico para a presença humana no espaço.

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