Punctum é o nome dado a um objeto astronômico altamente incomum, recentemente descoberto na galáxia NGC 4945 (Constelação de Centaurus), a cerca de 11 milhões de anos-luz da Terra, relativamente próximo em termos cósmicos.

Identificado por uma equipe internacional liderada pela astrofísica Elena Shablovinskaia, a descoberta ocorreu a partir de observações com o ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array), no Chile, durante um levantamento de alta resolução da referida galáxia. Segundo as notas do grupo, o achado foi inesperado — o objeto apareceu como um ponto (em latim Punctum) extremamente brilhante e altamente polarizado, que não estava em nenhum catálogo anterior.
Quando digo “altamente polarizado”, estou falando sobre uma característica da própria luz (ou, mais exatamente, das ondas eletromagnéticas que ele emite). A luz (e todo tipo de radiação eletromagnética) é formada por ondas que oscilam. Normalmente, em luz “comum”, essas oscilações ocorrem em todas as direções de forma aleatória. Quando a luz é polarizada, significa que as oscilações estão preferencialmente alinhadas numa direção específica.
Alta polarização indica que as ondas eletromagnéticas foram produzidas ou filtradas por campos magnéticos muito organizados. Em astrofísica, esse é um sinal típico de radiação síncrotron — emitida quando elétrons giram a velocidades próximas à da luz em torno de linhas de campo magnético.
Objetos como pulsars, magnetares e jatos de buracos negros costumam mostrar alta polarização, mas o mistério do Punctum é que tem intensidade e estabilidade que não batem exatamente com esses casos conhecidos. Ele parece ter potência e polarização compatíveis com esses objetos, mas não aparece nem no visível nem nos raios X — só no milimétrico. Isso foge totalmente do padrão, o que é um dos motivos dele estar intrigando tanto os astrônomos.
Quando digo milimétrico, quero dizer radiação que corresponde a ondas cujo comprimento está na faixa de 1 a 10 milímetros, situando entre o infravermelho distante e as micro-ondas no espectro eletromagnético.
O Punctum é visível APENAS em comprimentos de onda milimétricos, sendo invisível em luz visível e raios X. Entre pulsars, magnetares, jatos de buracos negros, restos de supernova e radiogaláxias, o Punctum é o único entre esses que não é detectado no visível nem em raios X, mesmo tendo luminosidade extrema no milimétrico.
Apresenta um brilho extraordinário — até 100.000 vezes mais luminoso que magnetares, e mais brilhante que quase todas as remanescentes de supernovas conhecidas — ficando atrás apenas da Nebulosa do Caranguejo nesse quesito. Porém, a Nebulosa do Caranguejo é bem extensa, e o Punctum, como o próprio nome sugere, é apenas um “pontinho”, sendo ultra-compacto. Vale lembrar, esse brilho é na radiação milimétrico.
Emissão é estável ao longo do tempo, o que descarta explosões ou eventos transitórios. Sua polarização estável é mais parecida com a de fontes controladas por campos magnéticos organizados (pulsars, jatos), mas sem as assinaturas energéticas esperadas. Fontes com emissão intensa costumam ser variáveis — explosões, pulsações, instabilidades — e isso ajuda a identificá-las. No Punctum, a constância dificulta a classificação, parecendo-se a uma máquina cósmica “ligada e estável”, mas sem o espectro amplo típico de jatos ou radiogaláxias.
A radiação detectada é altamente polarizada, sugerindo a presença de um campo magnético forte e organizado, típico de objetos compactos como pulsars ou magnetares, porém não mostra periodicidade clara como pulsars, nem surtos como magnetares, nem o espectro amplo de jatos de buracos negros.

A equipe liderada por Elena Shablovinskaia espera que o Telescópio Espacial James Webb possa trazer insights cruciais sobre o Punctum. Por sua sensibilidade e cobertura no infravermelho, o JWST poderia detectar linhas de emissão ou poeira associadas ao objeto, o que ajudaria a entender sua composição. Se a emissão for pura radiação síncrotron, sem sinais de poeira ou linhas, isso também seria revelador.
O artigo recente, “Descoberta pelo ALMA de Punctum – uma fonte mm altamente polarizada na galáxia nuclear com formação estelar explosiva NGC 4945”, foi carregada no servidor de pré-impressão arXiv.org em 17 de julho de 2025.
