A renomada astrônoma sueca Beatriz Villarroel lidera o projeto VASCO (Vanishing & Appearing Sources during a Century of Observations, em português “Fontes que desaparecem e aparecem durante um século de observações”), criado para encontrar “estrelas que somem” ao comparar fotografias dos anos 1950 com levantamentos digitais modernos. A ideia surgiu pelo menos com um artigo de 2019, de sua autoria, que já mostrava como vasculhar milhões de objetos antigos podia revelar fenômenos fora do nosso “catálogo” de eventos celestes conhecidos.
As placas do Primeiro Levantamento do Observatório Palomar (POSS-I) foram feitas entre 1949 e 1957, antes de existirem satélites artificiais. Cada placa é uma “foto” de ~50 min; se algo brilhou só por segundos, ainda assim deixa um pontinho. Se um pontinho aparece numa placa antiga, mas não há nada no mesmo lugar agora, ele é chamado de transiente – uma fonte de luz que “pisca e some”. Esses arquivos oferecem um retrato do céu livre de reflexos de satélites ou lixo espacial modernos.
O resultado mais marcante até agora é o “transiente triplo brilhante”: três fontes com magnitude 16 (magnitude = brilho), separadas por apenas 10 arcsegundos (1 arcsegundo = 1/3600 de grau, usado para medir distâncias no céu), que apareceram numa placa de 19 jul 1952 e sumiram menos de 1 hora depois. Imagens profundas feitas em 2023 com o telescópio GTC (Gran Telescopio Canarias) mostram que nada voltou a brilhar ali, ou seja, o objeto apagou mais de 10 magnitudes num intervalo curtíssimo – comportamento que não bate com supernovas, meteoros nem aviões.

Alguns pesquisadores sugeriram que nove transientes relatados poderiam ser “furinhos” da emulsão (emulsão fotográfica é a camada sensível à luz que fica depositada sobre um suporte – vidro, filme plástico ou papel – nas fotografias analógicas, atuando como sensor). No preprint “On the Image Profiles of Transients” submetido em 21 julho 2025, Villarroel mostra que flashes com duração de frações de segundo geram, sim, imagens mais circulares e “pontudas” do que estrelas borradas por 50 min de exposição. Ou seja, o formato do ponto não prova defeito; pode ser sinal de um clarão real.
No artigo intitulado “Some Transients in the Palomar Observatory Sky Survey (POSS-I) May Be Associated with Above-Ground Nuclear Testing and Reports of Unidentified Anomalous Phenomena”, de 24 julho 2025, Villarroel e o psicometrista Stephen Bruehl examinaram 107.875 transientes registrados entre 1949 e 1957. Eles queriam saber se essas luzes fugazes eram mais comuns perto das datas de testes nucleares atmosféricos e de relatos de UAPs.
Resultados mostraram que um transiente era 45 % mais provável de ocorrer dentro de uma janela de ± 1 dia de um teste nuclear do que fora dela. Além disso, cada UAP extra relatado num dia aumentava em cerca de 8,5 % o número de transientes observados nesse mesmo dia. Em linguagem simples: os pontinhos que piscam nas placas parecem se concentrar nos dias em que havia bombas sendo detonadas ou mais observações de objetos estranhos no céu.

Em “Aligned, Multiple-Transient Events in the First Palomar Sky Survey” (27 julho 2025), Villarroel e colegas procuraram sequências de transientes alinhados em linha reta na mesma placa – exatamente o que se espera de um objeto metálico girando e refletindo o Sol, como um “espelho” em órbita. Eles encontraram um candidato com 3,9 σ de significância observado em 19 jul 1952, três anos antes do Sputnik 1 (3,9 σ é um sinal forte o bastante que merece atenção, mas ainda não definitivo. É como ver algo “muito fora do comum”, porém que ainda requer confirmações independentes).

Se três ou mais pontos surgem numa fila perfeita dentro dos 50 min de exposição da placa, fica difícil culpar estrelas explosivas (supernovas) ou meteoros, que não aparecem assim. A equipe também notou um “buraco” estatístico de transientes dentro da sombra da Terra: sinal de que o brilho vem de reflexo da luz solar – algo compatível com objetos muito altos, talvez até geoestacionários.
Antes de 1957, nenhum país tinha satélites. Se refletor(es) em órbita alta realmente deixaram essas marcas, seriam artefatos de origem desconhecida. A explicação natural favorita é detrito rochoso ou gelo, mas objetos sólidos planos refletem melhor. Até agora, não há prova conclusiva; mas sinais que merecem verificação usando telescópios modernos capazes de registrar clarões de milissegundos.
Há perspectivas de usar levantamentos digitais modernos (ZTF, LSST, etc.) para verificar se algo parecido ainda “pisca” no céu de hoje. Ou seja, os autores pressupõem que, se fossem artefatos em geoestacionário (GEO), eles poderiam continuar lá (a órbita é estável por muitas décadas), mas reconhecem que nenhum dado contemporâneo foi analisado — logo, não há evidência direta de persistência. A próxima etapa proposta é justamente procurar flashes equivalentes em sky-surveys (levantamento do céu) atuais para confirmar ou refutar a hipótese.

A sueco-hispana Beatriz Villarroel é astrofísica formada pela Universidade de Uppsala, onde obteve o doutorado em 2016 com uma tese sobre núcleos ativos de galáxias (AGN). Depois de passagens por ETH-Zurique e Instituto de Astrofísica de Canarias, tornou-se assistant professor na Nordita/Universidade de Estocolmo, onde dirige os grupos de Astrofísica e Astropartículas. Ali coordena dois programas internacionais: o VASCO, que procura estrelas e flashes que “somem” ao comparar placas fotográficas antigas com levantamentos digitais, e o ExoProbe, voltado a rastrear possíveis artefatos extraterrestres próximos da Terra.
Villarroel recebeu diversos reconhecimentos, incluindo a bolsa Crafoord (2012), o prêmio L’Oréal-UNESCO “For Women in Science” na Suécia (2021) e, no ano seguinte, o título de International Rising Talent — primeira pesquisadora sueca a alcançá-lo. Em 2023 apresentou um TEDx sobre a busca de tecnossinais e, no mesmo ano, ganhou o Open Inquiry Award da Heterodox Academy por sua defesa da liberdade científica. Sua carreira combina métodos de ciência cidadã, estatística avançada e observatórios de ponta para investigar tanto fenômenos astrofísicos extremos quanto possíveis assinaturas tecnológicas no céu.
