Já já o Telescópio James Webb irá analisar o 3I/ATLAS

Objetos interestelares são raros: cada um que aparece traz pistas novas sobre como outros sistemas planetários nascem e evoluem. Se queremos respostas sólidas — e não só suposições — precisamos dos dados mais limpos e sensíveis possíveis. Aí entra o JWST (James Webb Space Telescope).

Na Terra, nossa atmosfera atrapalha justamente o que mais interessa em cometas: o infravermelho, onde moram as “assinaturas” de moléculas como água (H₂O), dióxido de carbono (CO₂) e monóxido de carbono (CO). O vapor d’água e o CO₂ atmosféricos absorvem boa parte desse sinal. O JWST observa acima da atmosfera e trabalha resfriado, com ruído térmico baixíssimo. Resultado: ele enxerga gases e gelo bem fracos que telescópios no solo dificilmente veriam.

Para o 3I/ATLAS, isso é crucial. Houve relatos iniciais de pouca emissão de gás e de poeira com comportamento incomum. O JWST consegue checar, com espectroscopia, se esses gases estão lá (mesmo que em pequenas quantidades) e em que proporção. Se encontrar CO, CO₂ e H₂O, reforça a leitura de “cometa natural”. Se não encontrar nada acima de certos limites, isso também é informação: coloca restrições fortes nos modelos e obriga a repensar o que está dirigindo a atividade.

Arte: Universo Iluminado

Além do “tem ou não tem gás?”, o JWST mede temperatura e composição da poeira. Isso ajuda a entender o tamanho dos grãos, a cor avermelhada e por que a cauda/“coma” às vezes parece apontar em direções pouco intuitivas (efeitos de projeção e grãos grandes são explicações possíveis). Com cubos 3D do NIRSpec/IFU, dá para ver como os voláteis e a poeira se distribuem na região ao redor do núcleo, em vez de um único número integrado.

“Um único número integrado” é quando você soma toda a luz de uma área (por exemplo, toda a coma dentro de um círculo no céu) e transforma isso em um valor só, como “Q(H₂O) = 1×10²⁷ moléculas/s” ou “fluxo total = X”. Você não vê onde esse gás/poeira está mais forte ou fraco — só o total combinado. É como fazer um suco: você mede o açúcar do suco inteiro, mas não sabe qual pedaço de fruta contribuiu com quanto. O IFU do JWST evita isso porque mapeia ponto a ponto, mostrando a distribuição (direções, jatos, gradientes) em vez de apenas um totalzão.

Com o NIRSpec/IFU do JWST, obtemos um “cubo 3D” (X, Y e comprimento de onda) em que cada ponto da imagem tem um espectro completo; assim, dá para fazer mapas do gás (integrando nas linhas de H₂O, CO₂, CO e afins) e mapas da poeira (no continuum), subtrair um do outro e ver onde e quanto de cada componente existe ao redor do núcleo, além da direção de jatos, perfís radiais, tamanho de grãos, e mudanças ao longo do tempo. Em vez de um único número integrado, o IFU mostra a distribuição e evolução de voláteis e poeira do 3I/ATLAS em detalhes, testando diretamente hipóteses como “coma voltada para o Sol” ou “escassez de gases”.

Outra peça importante é acompanhar o antes e depois ao longo da aproximação ao Sol. A atividade de um cometa não liga e desliga de um dia para o outro; ela cresce com o aquecimento. Visitas do JWST em épocas diferentes mostram como a taxa de poeira e gás muda, se a coma expande ou não e se as direções dos jatos variam. Isso testa previsões simples (como “deveria aumentar X% em tantos dias”) contra o que a física realmente permite.

Também vale dizer: o JWST tem rastreamento de alvos móveis, então ele consegue “seguir” o 3I/ATLAS enquanto ele cruza o céu. Isso evita borrões e melhora a qualidade das medidas. Somando instrumentos (NIRSpec, NIRCam, MIRI), conseguimos um retrato químico e térmico bem completo — algo que nenhum outro observatório, sozinho, entrega com a mesma sensibilidade hoje.

Por fim, o JWST ajuda a fechar a porta para interpretações fantasiosas ou confirmar algo realmente fora do comum. Se houver acelerações não explicadas por jatos, emissividades térmicas impossíveis em materiais naturais, ou espectros com “assinaturas” estranhas, os dados vão mostrar. Se, ao contrário, tudo bater com gelo + poeira de um cometa fraco, teremos uma conclusão sólida, baseada em medições e não em prazos arbitrários.

Em resumo: observar o 3I/ATLAS com o JWST não é luxo, é necessidade científica. Só com um telescópio espacial infravermelho, estável e ultra-sensível, conseguimos decidir entre “cometa exótico, porém natural” e “algo totalmente diferente”. Para quem ama ciência — e quer separar fato de especulação —, esse é o tipo de observação que muda a conversa.

Já há observações do JWST para o 3I/ATLAS em agosto. Estão no cronograma oficial da STScI (link acessado em 05/08/2025), instituto que faz a operação científica do Hubble desde 1990 e lidera as operações científica e de missão do JWST: em 6 de agosto de 2025, duas visitas com NIRSpec/IFU marcadas para 10:15–10:53 UTC e 11:03–11:41 UTC (≈ 07:15–07:53 e 08:03–08:41 no horário de Brasília). O alvo aparece como “3I_ATLAS” e o modo como “MOVING – TARGETED MOVING” (rastreamento de alvo móvel).

Atualização: De acordo com uma postagem no reddit, os dados de 6 de agosto de 2025 estão atualmente sob um embargo proprietário padrão de 3 meses. Espera-se que estejam disponíveis no Mikulski Archive for Space Telescopes (MAST) por volta do início de novembro de 2025 (tomare que saia antes).

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